Um documentário de quase quatro horas sobre Elon Musk estreou no Festival de Cinema de Veneza sem a participação do bilionário, e já provoca debate sobre limites da representação com IA.
Dirigido pelo americano Alex Gibney, o filme usa ferramentas de inteligência artificial para construir uma versão do empresário, e traça a transição de sua carreira da tecnologia para a política.
O projeto cresceu após o envolvimento de Musk com figuras e movimentos políticos, e coloca em cena a interseção entre negócios, plataformas e poder, conforme informação divulgada no Festival de Cinema de Veneza.
Como o filme foi feito e o papel da inteligência artificial
O documentário, intitulado “Musk”, reúne imagens de arquivo, depoimentos de pessoas próximas e uma personagem gerada por inteligência artificial que reproduz declarações públicas do empresário.
O diretor afirmou que a equipe consultou advogados antes de adotar o recurso, para avaliar riscos legais, e que a figura criada pela IA serve para ilustrar e confrontar as falas que Musk proferiu ao longo dos anos.
No trailer de 48 segundos, imagens de naves e equipamentos de exploração espacial se alternam com depoimentos que mostram a polarização em torno de Elon Musk.
Trechos do trailer reproduzem falas contundentes, como: “Ele é possivelmente o maior inventor vivo. Ele é o Homem de Ferro da vida real. Ele é um dos maiores construtores de todos os tempos”.
Na sequência, o tom muda para críticas, com a declaração: “Ele é o maior capitalista da história. Ele é caótico, aleatório, caprichoso, manifestamente cruel e egoísta. Ele é um fascista.” O vídeo termina com a frase, “Elon é uma bomba”, enquanto uma nave espacial explode em chamas.
Da tecnologia para a política, o foco em influência
Gibney usa a trajetória empresarial de Elon Musk para mostrar como o controle de empresas e plataformas ajudou o bilionário a ampliar sua influência para além dos negócios.
Entre os episódios abordados estão a compra do Twitter, depois rebatizado de X, a atuação de Musk no governo de Donald Trump, e contratos como os da SpaceX com o governo americano.
Para o diretor, a combinação entre negócios, tecnologia e política deu a Musk uma influência incomum para alguém que não ocupa um cargo eletivo.
O filme também traça conexões internacionais, citando apoio e simpatias de Musk por movimentos e partidos de direita, incluindo menção à Alternativa para a Alemanha, AfD.
Recusa de participação, críticas e processo de produção
Musk não participou das entrevistas do documentário. Segundo Gibney, o empresário foi procurado no início da produção, mas recusou o convite para ser entrevistado.
Gibney disse ainda, “Pretendíamos fazer um filme mais curto antes que Elon Musk se envolvesse com a carreira de Donald Trump e a Presidência dos Estados Unidos”.
Após a divulgação do filme, Elon Musk criticou o projeto em sua rede social, o X, acusando Gibney de ser tendencioso.
A produção também afirma que consultou assessoria jurídica antes de usar a IA, em parte para mitigar o risco de disputas judiciais pelo uso da imagem e das falas do empresário.
Depoimentos e revelações pessoais
O documentário reúne depoimentos de pessoas que conviveram com Musk, incluindo Ashley St. Clair, ex-parceira do empresário e mãe de um de seus filhos.
Segundo o relato apresentado, St. Clair “recusou um acordo de confidencialidade de US$ 40 milhões após o fim do relacionamento”.
Ao longo do filme, vozes próximas e especialistas ajudam a compor uma visão plural sobre o impacto de Elon Musk na tecnologia, na mídia e na política contemporânea.
O filme de quase quatro horas, portanto, promete provocar debates sobre ética, poder e o papel da inteligência artificial na representação de figuras públicas, e deve ampliar a discussão sobre como a influência privada pode moldar decisões públicas.