Anfavea alerta que a prorrogação da isenção para veículos semimontados favorece carros chineses em grande volume, altera regras de competição e pode afetar empregos, produção e a balança comercial
A Anfavea voltou a criticar a ampliação da isenção de imposto para veículos elétricos semimontados e desmontados, ao afirmar que a medida cria um cenário de competição desigual entre marcas instaladas no Brasil e importadoras.
Segundo a associação, marcas chinesas têm trazido grandes volumes de carros semimontados, com tributação menor, o que prejudica fabricantes que investiram em plantas locais e cadeia produtiva.
As posições foram divulgadas pela Anfavea, que classificou a decisão como tomada sem diálogo com a entidade e seus associados, conforme informação divulgada pela Anfavea.
O que mudou na regra e quem é beneficiado
Em junho, o Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior renovou a cota de importação sem impostos de veículos elétricos semimontados e desmontados, conhecidos como processos CKD e SKD.
Pela decisão do governo, os veículos montados no Brasil, chamados de CKD, e os semimontados no país, chamados de SKD, não pagarão imposto de importação pelos próximos seis meses.
O volume de importações que não pagarão imposto é de US$ 463 milhões durante seis meses, a partir de 1º de julho de 2026. A medida vale até janeiro de 2027.
Reclamações da Anfavea e participação da BYD
Segundo Igor Calvet, presidente da Anfavea, a decisão de ampliar a isenção cria um cenário de competição desigual, porque marcas com infraestrutura instalada há mais tempo no Brasil ficam em desvantagem.
Andrea Serra, diretora tributária e de comércio exterior da Anfavea, afirmou que um dos critérios para usufruir do benefício é o cálculo do volume de importação, que leva em consideração as operações desde 2023, e que, por isso, não reflete o mercado atual.
Da maneira como está calculada a isenção, cerca de 80% dessa cota corresponde somente a BYD, segundo a Anfavea, o que concentra o benefício em poucas marcas importadoras.
Impacto sobre empregos e produção
O presidente da Anfavea advertiu sobre o efeito sobre o emprego industrial, ao afirmar que, se o Brasil mudasse toda a indústria automotiva para os regimes de CKD e SKD, seriam perdidos 70% dos empregos do setor.
Um estudo da Anfavea estima que, de cada 10 trabalhadores necessários para a produção de carros no Brasil, apenas 3 seriam necessários para montar o mesmo carro em regime de CKD ou SKD, o que reduz etapas produtivas e demanda por mão de obra.
Esse quadro, segundo a associação, pode comprometer fornecedores, investimentos em cadeia local e a manutenção de empregos industriais qualificados.
Números recentes do mercado, produção e comércio exterior
Apesar das críticas, a Anfavea revisou para cima suas projeções por causa do aquecimento das vendas internas, e agora prevê crescimento da produção.
Entre janeiro e junho, foram produzidos 1,372 milhão de veículos, alta de 8,8% em relação ao mesmo período de 2025, o melhor resultado para o período desde 2019.
A expectativa da entidade é que os emplacamentos cresçam 11,7% em relação a 2025, com o segmento de automóveis e comerciais leves projetado para subir 12,6%, enquanto caminhões e ônibus devem encerrar o ano em queda de 6%.
Para 2026, a projeção de produção foi elevada, e o Brasil deve fabricar cerca de 2,8 milhões de veículos em 2026, o maior volume desde 2019, segundo a Anfavea.
No semestre, as vendas de automóveis cresceram 23,7% no semestre, o equivalente a 208 mil unidades a mais do que no ano anterior, e cerca de 73 mil dessas vendas foram impulsionadas pelo programa Carro Sustentável.
Por outro lado, as exportações mostram retração significativa, Em junho, os embarques de veículos ficaram 26,7% abaixo do registrado no mesmo mês do ano passado, e, no acumulado do semestre, o Brasil exportou 216,6 mil veículos, queda de 21,2%.
Entre janeiro e junho, entraram no país 280,6 mil veículos importados, enquanto as exportações ficaram abaixo desse volume em cerca de 63 mil unidades, o que devolveu ao setor um déficit na balança comercial.
A China respondeu por metade dos veículos importados no período, e em apenas um ano, o número de automóveis chineses vendidos no Brasil dobrou, passando de cerca de 70 mil para 140 mil unidades, segundo a Anfavea.
Consequências e próximos passos
A Anfavea reclamou junto ao Gecex que não houve discussão prévia sobre a postergação do incentivo, e pede revisão dos critérios de cálculo da cota, para que reflitam o mercado atual.
Para a entidade, decisões sem diálogo aumentam a percepção de tratamento desigual, e podem gerar impacto na indústria local, no emprego e na competitividade da produção nacional.
O debate agora envolve governo, indústria e importadores, e a expectativa é de que a questão volte a ser discutida nos próximos meses, com foco em preservar investimento industrial, empregos e a produção local.