Romi-Isetta 70 anos, o carro de uma porta só que abriu a produção em série no Brasil, legado industrial e transformação de Santa Bárbara d’Oeste

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O Romi-Isetta completa 70 anos, lembrado por sua porta única na dianteira e por inaugurar um modelo de produção em série no interior do país.

A fábrica da Romi, em Santa Bárbara d’Oeste, antecipou a chegada das grandes montadoras e contribuiu para a formação de uma cadeia produtiva local especializada.

Apesar de ter sido um caso de pouco sucesso comercial, com tiragem restrita, o veículo deixou legado técnico, com mais de 70% do peso em peças nacionais e impacto na mão de obra especializada, conforme informação divulgada pelo g1

Como nasceu a primeira linha de montagem brasileira

A iniciativa partiu de Américo Emílio Romi, dono da Romi, que decidiu produzir um carro pequeno e econômico em sua fábrica no interior paulista. A experiência empresarial e a capacidade metalúrgica da empresa foram determinantes para o projeto sair do papel.

Segundo a reportagem, “Emílio Romi era filho de imigrante italiano, teve oportunidade de estudar na Itália, serviu à guerra e trabalhou em empresas italianas. Seu enteado, Carlos Chiti, lendo publicação em uma revista, soube que na Itália era fabricado o Isetta. E ele foi até lá e conseguiu autorização para que o carro fosse feito em Santa Bárbara do D’Oeste”, conta Antonio Carlos Angolini, idealizador do arquivo da Fundação Romi.

A Romi já manufaturava tornos, fresadoras e implementos agrícolas, e por isso dominava tecnologias fundamentais para fabricar componentes metálicos complexos. O professor Mário Sacomano resume a capacidade local, dizendo que a empresa “era uma empresa altamente especializada em máquinas-ferramenta e implementos agrícolas, segmentos que exigiam grande precisão mecânica.”

Produção, números e reconhecimento oficial

A produção do Romi-Isetta durou até 1961 e, no período, foram lançadas apenas cerca de 3 mil unidades no mercado, segundo a matéria.

O carro chegou a ter mais de 70% do seu peso em peças fabricadas no Brasil, o que demonstra o esforço de nacionalização de componentes naquela época. Apesar disso, o título de primeiro carro produzido em série reconhecido oficialmente pelo governo não ficou com a Romi.

Sacomano aponta motivações políticas para esse resultado, ao observar que “O governo JK estava estruturando uma política industrial voltada para atrair grandes montadoras internacionais como Volkswagen, Ford, General Motors, Willys e Mercedes-Benz. Reconhecer oficialmente a Romi-Isetta como o primeiro automóvel nacional poderia enfraquecer simbolicamente a narrativa de que o Brasil estava inaugurando sua indústria automobilística graças ao Plano de Metas.”

Na prática, o reconhecimento oficial coube à DKW-Vemag Universal, lançada dois meses depois do modelo da Romi, com 54% do peso em peças nacionais, e que atendia aos critérios de duas portas e quatro lugares estabelecidos pelo governo.

Impacto local e legado industrial

Embora a tiragem tenha sido pequena, o efeito econômico e simbólico foi grande para Santa Bárbara d’Oeste. A produção fortaleceu um parque metalúrgico local, ampliou o emprego industrial qualificado e ajudou a transformar a identidade de uma cidade antes fortemente ligada à agricultura.

“Brasil ainda era um país bastante agrícola”, lembra Eugênio Guimarães Chiti, membro do Conselho da Fundação Romi. “Mas, já começava a ter um processo de industrialização. Tinha em Santa Bárbara d’Oeste a Romi, que fabricava máquinas. Em 1956, o Isetta, já estava sendo fabricado localmente, no Brasil.”

Para pesquisadores, o principal legado da Romi foi demonstrar que era possível montar uma rede de fornecedores locais, treinar mão de obra especializada e nacionalizar peças, competências que serviram de base para o crescimento posterior da indústria automotiva no país.

Colecionadores, memória e futuro

Hoje, os exemplares que restaram são itens de colecionador e participam de encontros que celebram a história. O colecionador Flavio Fernandes conta a história da recuperação de uma unidade: “Nós queríamos alguma coisa que fosse diferente de só um fusca reformado, ou uma Kombi rebaixada. A gente queira alguma coisa que tivesse memória do antigo automobilismo do Brasil. E aí começamos achando uma Romi-Isetta real, 1957, pendurado num galinheiro”.

Flavio está reconstruindo o carro desde 2018 e resume a relação afetiva com a restauração, dizendo que “Mas carro antigo é assim, sempre está quase pronto”. O colecionador também encomendou uma réplica com motor elétrico e controle remoto, afirmando que “No meio do caminho surgiu a possibilidade de fazer isso para o meu netinho ficar hipnotizado também. Eu estou tentando fazer ele ficar hipnotizado a gostar de carro antigo e ele já ficou doido com isso. É uma réplica de nosso carro, só que com motor elétrico e com controle remoto”.

O contexto atual da indústria traz novos desafios. Para o pesquisador Sacomano, a trajetória da Romi expõe um dilema antigo, sobre equilibrar atração de investimento estrangeiro e fortalecimento de empresas nacionais.

O economista José Eduardo Roselino alertou para a transformação em curso no setor, com descarbonização e novas tecnologias, e com a entrada de montadoras chinesas dominando software, semicondutores e sistemas eletrônicos, o que muda a lógica de competição global.

Mais do que celebrar um modelo, os 70 anos do Romi-Isetta convidam a olhar para as lições industriais deixadas por um projeto pioneiro, para as decisões de políticas públicas que moldaram o setor e para os desafios de renovar capacidade local em um mercado cada vez mais tecnológico e globalizado.

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