Queda média de 10,2% nos preços dos carros usados entre os 25 modelos mais procurados, oferta de chineses e descontos de zero km ampliam a pressão sobre os seminovos
O mercado de seminovos no Brasil mostra uma desvalorização mais acelerada do que a tabela Fipe tem registrado, com queda média de 10,2% nos 25 carros mais buscados nos últimos 12 meses.
Essa perda de valor, segundo levantamento exclusivo da Auto Avaliar, é influenciada pela chegada de marcas chinesas ao mercado e pelas promoções nas linhas zero km, que reduzem o ágio e forçam ajustes nos estoques das lojas.
Os dados e as análises aqui citadas foram divulgados, conforme informação divulgada pelo g1.
Queda real nos preços, superior à Fipe
O levantamento da Auto Avaliar, feito com exclusividade para o g1, mostra que todos os 25 carros usados mais buscados do Brasil caíram de preço nos últimos 12 meses, em uma média de 10,2%, enquanto a Fipe registra uma média de apenas 4%.
A pesquisa cobre anos-modelo entre 2019 e 2025, com 30 mil combinações de modelo, versão, ano e estado apenas nos 25 carros listados, e considera dados de transações reais, ao invés de anúncios.
A Auto Avaliar é uma plataforma em que mais de 27 mil lojistas compram e vendem automóveis. Existem mais de 6 mil concessionárias cadastradas, o que corresponde a 85% do segmento.
Os números de desvalorização no preço de venda ao consumidor em agosto de 2026 são, conforme o levantamento, os seguintes:
Jeep Compass: -15,7%
Jeep Renegade: -13,8%
Chevrolet Tracker: -13,5%
Ford Ranger: -11,8%
Toyota Corolla Cross: -11,8%
VW Nivus: -11,2%
Fiat Pulse: -10,5%
Toyota Hilux: -10,3%
Chevrolet Onix: -10,1%
Honda Civic: -10,1%
Hyundai Creta: -10%
Honda HR-V: -9,9%
Nissan Kicks: -9,7%
Fiat Strada: -9,6%
VW T-Cross: -9,5%
Toyota Corolla: -9,3%
VW Polo: -9,3%
Fiat Toro: -9,3%
Honda City: -9,2%
VW Virtus: -8,6%
Hyundai HB20S: -8,5%
Toyota Yaris: -7,9%
Fiat Argo: -7,2%
Hyundai HB20: -7%
Renault Kwid: -6,8%
Por que a Fipe registra menos queda que o mercado
A diferença entre as quedas medidas pela Auto Avaliar e pela Fipe decorre da metodologia, segundo especialistas. J.R. Caporal, presidente da Auto Avaliar, explica que, “O nosso banco de dados mostra o quanto o lojista pagou pelo carro e por quanto ele fechou a venda”, o que permite ver ajustes de preço em tempo mais próximo.
Já José Éverton Fernandes, presidente da Federação Nacional dos Revendedores de Veículos Automotores, afirma que, “Na Fipe, a gente olha para um retrovisor. São dados de quatro semanas atrás e que provocam essa sensação de preços praticados fora da realidade”, o que cria um atraso na percepção das quedas reais.
Na prática, isso significa que o preço anunciado pelo lojista e o valor final pago pelo cliente podem divergir, e a medição por transações efetivas revela recuos mais profundos.
Efeito China, promoções e crédito mais restrito
Consultores e executivos atribuem a pressão sobre os preços dos carros usados a três fatores combinados. Primeiro, a chegada de marcas chinesas com ofertas agressivas e garantia estendida, segundo, os descontos das fabricantes tradicionais em modelos zero km, e terceiro, critérios de crédito mais rígidos que limitam a capacidade de compra.
A consultora Tereza Fernandez destaca que a queda dos preços dos seminovos se consolidou em 2026 e que lojas com estoques elevados podem ter prejuízos, dependendo da velocidade com que ajustam preços.
Para Cássio Pagliarini, da Bright Consulting, “A maioria desses carros chineses já entrega eletrificação, tecnologia e um tempo de garantia que dá segurança ao cliente”, o que ajuda a explicar a migração de parte da demanda do usado para o zero km.
Pagliarini também projeta um mercado volumoso, afirmando que o mercado de veículos em 2026 possa chegar perto de 3 milhões de unidades, mas ressalta que a aprovação do crédito é o principal obstáculo para que a demanda efetive mais compras.
Impactos para consumidores e lojistas
O ajuste reduz o chamado ágio, que antes permitia vender seminovos acima da Fipe, especialmente os modelos mais desejados. Em agosto de 2025, 1 em cada 3 seminovos “queridinhos” era vendido acima da Fipe, já em agosto de 2026 esse valor caiu para irrisórios 0,8%.
O fenômeno é ainda mais evidente entre seminovos com menos de 2 anos, onde mais de 67% eram vendidos com ágio em 2025, e esse percentual caiu para apenas 2% em 2026.
Os veículos movem-se rápido nas lojas, mas os que ficaram mais tempo em estoque foram adquiridos em um contexto de preços mais altos. Como observa Caporal, “O lojista precisa entender que é o momento de vender ganhando menos e voltar ao mercado para comprar estoque no preço certo e buscar de novo a margem”, uma estratégia para recuperar liquidez.
Para o consumidor, a queda dos preços dos carros usados traz custos menores na hora da venda do seminovo, e também opções mais baratas para recompor o parque, apesar de a compra de um zero km depender fortemente das promoções e do acesso ao crédito.
Nem todos os especialistas conseguiram prever até quando essa reacomodação de preços deve durar, o que mantém o mercado em atenção, com lojistas monitorando velocidade de vendas e consumidores avaliando ofertas de usados e novos.