Os carros inteligentes transformaram veículos em computadores cheios de sensores, capazes de mapear sua vida quase segundo a segundo, entre locais, comportamentos e até sinais biométricos
Os carros modernos não são só máquinas, eles são coletores permanentes de dados, conectados à internet e equipados com câmeras e sensores que acompanham viagens, passageiros e reações no interior do veículo.
Essas informações podem incluir, entre outros itens, trajetos precisos, quem está no carro, o que toca no rádio, uso do cinto, velocidade, peso, idade, raça e expressões faciais.
Se você dirige um veículo relativamente novo, existe grande chance de já estar sendo monitorado, e a maior parte das pessoas não sabe o que é coletado e para onde esses dados vão, conforme informação compilada a partir de relatórios da Mozilla, McKinsey, Brookings, BBC e The New York Times.
Que tipos de dados os carros inteligentes coletam
Os fabricantes descrevem nas políticas de privacidade sensores espalhados pelo veículo, que registram desde o funcionamento do motor até comportamentos dentro do habitáculo, inclusive por câmeras internas.
A consultoria McKinsey estimou que 50% dos carros em circulação em 2021 tinham conexão com a internet e previu que esse número chegará a 95% até 2030, o que amplia muito a escala da coleta de dados.
A análise da Mozilla sobre 25 marcas concluiu que nenhuma atendeu aos padrões de privacidade e segurança adotados pela organização, e que carros são “a pior categoria de produto que já avaliamos em termos de privacidade“.
Quem compra esses dados e para que serve a informação
As montadoras, seguradoras e empresas de venda de dados compram, agregam e revendem registros de localização, comportamento e perfis, muitas vezes sem transparência sobre compradores e finalidades.
Relatos mostram que empresas como a LexisNexis chegaram a ter arquivos extensos, como um material com 130 páginas de informações detalhando viagens de um motorista e sua esposa ao longo de seis meses, segundo reportagem do The New York Times.
Em casos práticos, esses dados influenciam preços de seguros, com relatos de reajustes, como um aumento de 21% no valor do seguro citado por um motorista, após uso de informações telemétricas.
O que dizem as autoridades e os fabricantes
Há ações regulatórias em curso, por exemplo a Comissão Federal de Comércio dos EUA, que tomou medidas contra a General Motors, e a GM agora está proibida de vender dados de veículos pelos próximos cinco anos, salvo se obtiver consentimento explícito dos motoristas e cumprir exigências.
Enquanto isso, a indústria avança em sensores obrigatórios, pois uma lei americana vai exigir, em novos modelos, câmeras biométricas infravermelhas e sistemas para detectar álcool e fadiga, o que pode gerar uma nova onda de dados sensíveis, sem regras claras sobre uso e destino.
Segundo Jen Caltrider, analista de privacidade que liderou a pesquisa da Mozilla sobre automóveis, “Elas pegam todas as informações que coletam sobre você, e isso é muita coisa, e usam esses dados para tirar conclusões sobre quem você é, qual é o seu nível de inteligência, seu perfil psicológico e suas crenças políticas“.
Como se proteger contra a vigilância dos carros inteligentes
Existem medidas práticas que motoristas podem adotar, embora não sejam soluções perfeitas. Evite participar de programas de telemetria de seguradoras quando privacidade for prioridade, pois descontos prometidos não são garantidos.
Uma análise no Estado de Maryland mostrou que, entre participantes de programas de telemetria, 31% tiveram redução no valor do seguro, 24% passaram a pagar mais e 45% não tiveram mudança, o que ilustra o risco financeiro.
Verifique as configurações de privacidade no sistema multimídia do veículo e nos aplicativos vinculados, solicite cópia dos seus dados e, onde for possível por lei, peça a exclusão ou bloqueio de venda, ações permitidas na União Europeia, no Reino Unido e em alguns estados dos EUA.
No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados, LGPD, define regras sobre compartilhamento de dados pessoais, e consumidores podem usar esses instrumentos para exigir direitos, embora na prática o acesso e a fiscalização variem.
Especialistas recomendam também manter atualizações de software do carro em dia, desconectar dispositivos quando possível, e favorizar configurações que limitem coleta, sempre lembrando que muitas práticas são descritas em termos de uso que poucos leem na hora de configurar o veículo.
O que esperar e por que isso importa
Os “carros inteligentes” prometem benefícios claros, como segurança e conveniência, mas também ampliam o alcance de corporações e corretores sobre hábitos privados, sem garantias de controle pelo usuário.
Como alerta Darrell West, pesquisador do Brookings Institute, “As pessoas ficariam chocadas com a quantidade de dados que seus carros coletam e transmitem para as montadoras ou aplicativos externos“, isso significa que a sua vida pode ser reconstruída quase segundo a segundo.
Enquanto não houver padrões legais mais rígidos e transparência real, a proteção dependerá em grande parte de escolhas individuais, configurações dos veículos e pressão por regras que limitem o comércio e o uso de dados gerados por carros inteligentes.