O mercado de carros usados no Brasil vive uma pressão inédita em 2026, com quedas significativas nos valores negociados, e a origem do movimento tem nome, preço e estratégia,
a chegada massiva de modelos chineses com tecnologia e garantia, e as respostas comerciais das montadoras tradicionais, com descontos e financiamentos agressivos,
trouxeram uma nova referência de preço para o consumidor, conforme informação divulgada pelo g1
Queda real nas transações, bem acima da tabela
Dados da Auto Avaliar mostram que os preços efetivamente negociados para veículos com até três anos de uso caíram 9,3% entre janeiro e junho de 2026, quase quatro vezes mais que a variação indicada pela tabela Fipe, que recuou 2,4% no mesmo período.
A plataforma, usada por mais de 27 mil lojistas e mais de 6 mil concessionárias, que correspondem a 85% do segmento, registra movimentos de precificação que chegam ao ponto de antecipar tendências que ainda não aparecem nas referências públicas,
e isso faz com que descontos praticados nas lojas reconfigurem rapidamente o valor percebido pelo comprador.
Modelos que mais perderam valor e promoções que mexem no mercado
Alguns carros recentes registraram perdas que passam de 20% no primeiro semestre de 2026, entre eles o Toyota Corolla 2025, com redução de 21,2%, o Volkswagen T-Cross 2025, com queda de 20,9%, e o Honda HR-V 2025, que recuou 20%, segundo levantamento da Auto Avaliar.
Ao mesmo tempo, as fabricantes tradicionais passaram a oferecer descontos expressivos para enfrentar os chineses, com operações que chegavam a reduzir preços em dezenas de milhares de reais, como desconto de R$ 55 mil no Mitsubishi Outlander PHEV, R$ 50 mil no Suzuki e-Vitara, R$ 38,5 mil no Fiat Fastback Hybrid e R$ 28,5 mil no BYD Song Pro, em alguns casos motivados pela chegada de sucessores.
Quando o zero km vira opção mais barata que o seminovo
A distorção fica evidente nas simulações de financiamento e descontos: a Auto Avaliar mostrou um exemplo em que um Jeep Compass Sport zero km, com preço na loja após desconto de R$ 147 mil, resultava em 30 parcelas sem juros de R$ 1.966,67, e custo total de R$ 147 mil.
Em comparação, um Volkswagen Taos Comfortline 2025 usado com anúncio de R$ 164 mil e preço na loja de R$ 159 mil, financiado em 30 parcelas com juros de 1,6% ao mês, tinha parcela de R$ 2.997,80 e custo total de R$ 177,9 mil. A conclusão do estudo foi direta, o carro usado, apesar de anúncio mais barato, ficava R$ 30 mil mais caro que o zero km pelas condições e descontos.
Geraldo Victorazzo, vice-presidente da Auto Avaliar, resumiu o fenômeno, “O carro não precisa sair da garagem para perder valor. Quando uma montadora reduz significativamente o preço do zero km ou lança uma condição agressiva de financiamento, ela cria imediatamente uma nova referência para o consumidor“, conforme declaração divulgada pelo g1.
Impacto para lojistas, liquidez e decisões de compra
Para lojistas, a velocidade da desvalorização é um risco que precisa ser gerido com critérios, como velocidade de desvalorização, liquidez e prazo estimado para venda, segundo a Auto Avaliar,
a avaliação é que estoques altos podem levar a prejuízos, especialmente se a loja comprou seminovos com base em referências que mudaram semanas depois, e ajustar preço rápido é fundamental para reduzir perdas.
A consultora Tereza Fernandez avalia que a queda dos preços dos seminovos se consolidou em 2026, mas não configura necessariamente uma crise no segmento de lojas de usados, pois o impacto dependerá da velocidade da queda, do tamanho da desvalorização e do volume de estoque que cada vendedor mantém.
Para Cássio Pagliarini, da Bright Consulting, há também um fator de confiança do consumidor, “A maioria desses carros chineses já entrega eletrificação, tecnologia e um tempo de garantia que dá segurança ao cliente“, o que ajuda a explicar a migração de parte da demanda do usado para o zero km, em especial para modelos eletrificados.
Volume de negócios e perspectiva
Apesar da pressão sobre preços, o mercado de usados segue com grande volume de negócios, entre janeiro e julho de 2026 foram negociados 7,9 milhões de automóveis e comerciais leves usados no Brasil, uma relação de 4,88 veículos usados negociados para cada carro novo vendido no período, segundo a Auto Avaliar.
O Data OLX Autos também mostra mudança no comportamento do consumidor, a busca por carros de marcas chinesas entre janeiro e julho de 2026 subiu 124% em comparação com o mesmo período de 2025, e 27% das buscas por chineses concentram-se na faixa de R$ 100 mil a R$ 130 mil.
O cenário sugere que a combinação de oferta chinesa competitiva, descontos e condições financeiras agressivas pelas fabricantes tradicionais vai continuar mexendo na referência de preços, e que consumidores e lojistas precisarão ajustar estratégias para navegar em um mercado mais dinâmico e sensível a promoções.