A autorização para testes que levam a gasolina comum a 35% de etanol provocou dúvidas entre motoristas sobre danos a motores e componentes.
Especialistas alertam que os efeitos serão mais sentidos em carros antigos, mas modelos mais novos também podem apresentar problemas se não houver manutenção e adaptações.
As informações a seguir foram reunidas e comentadas por mecânicos e especialistas, conforme informação divulgada pelo g1.
Principais peças que podem ser afetadas
O aumento da proporção de etanol na gasolina altera a experiência de queima do combustível, o que impacta várias peças do sistema de alimentação e ignição.
O componente que mais preocupa é o carburador, presente em veículos antigos, porque, como explica Tenório Júnior, “Os carburadores são ‘burros’. Eles não se adaptam ao combustível. Nos carburadores, a passagem de ar e de combustível para obter a mistura ideal é fixa“.
Bruno Bandeira, mecânico e proprietário da Oficina Mecânica Na Garagem, é enfático sobre o risco, “Esse carburador tá condenado“, ao se referir ao efeito corrosivo e ao funcionamento inadequado com mais etanol.
Outro ponto sensível são os tanques metálicos de carros mais antigos, que podem corroer com a nova mistura, enquanto os tanques plásticos, comuns desde os anos 2000, oferecem menos risco.
A bomba de combustível também pode ser afetada, porque o etanol pode trazer água, e essa umidade acelera a corrosão do conjunto. Conforme a análise técnica, o etanol presente na gasolina pode conter até 0,7% de água, o que, em veículos parados, tende a aumentar pela absorção de umidade.
Os bicos injetores podem sofrer quando a central eletrônica aumenta o tempo de injeção para compensar o menor poder energético do combustível, “A central aumenta o tempo de injeção para compensar o menor poder energético do E35. Se os bicos já estiverem parcialmente sujos, o aumento da demanda pode deixar o problema mais evidente, causando falhas ou marcha lenta irregular“, diz Alexandre.
Velas e catalisador também entram na lista, principalmente se já houver desgaste: velas comprometidas favorecem falhas de queima e o catalisador pode ter a vida útil reduzida ao receber combustível mal queimado.
Por que carros antigos sofrem mais, e o que muda nos mais novos
Segundo especialistas, a explicação técnica passa pela taxa de compressão e pelo projeto do motor. “Quanto mais etanol for adicionado à gasolina, maior a dificuldade de queima ideal do combustível, porque a compressão do motor não é o bastante para o melhor aproveitamento do combustível e a temperatura de trabalho dos carros a gasolina, são inferiores aos carros flex ou a álcool“, aponta Tenório Júnior, técnico e professor de mecânica automotiva.
Tenório ressalta que “Isso [a taxa de compressão incorreta] gera falhas, perda de potência e dificuldade nas partidas a frio“, efeitos já observados com a mistura atual de 32% e que podem se agravar com 35%.
Veículos com injeção eletrônica têm maior capacidade de adaptação, por meio de ajustes na ECU, mas nem sempre essa reprogramação é simples ou barata, e pode não eliminar todos os efeitos sobre peças já envelhecidas.
Soluções, adaptações e manutenção preventiva
Para veículos sem carburador, uma alternativa é a atualização da unidade de controle do motor, a ECU, para ajustar tempos de injeção e mistura, permitindo melhor adaptação ao que vem a ser chamado de E35.
Alexandre Dias, mecânico e proprietário das oficinas Guia Norte, lembra que “uma manutenção mais cuidadosa dos componentes citados anteriormente pode ajudar a preservar a durabilidade do veículo”.
Em carros com carburador, a adaptação existe, mas é trabalhosa, porque, como observa Tenório, é preciso trocar e ajustar giclês e furos, “porque tem furos de passagem de ar e de combustível (giclês) no carburador, que são substituíveis por serem peças de rosca, mas será necessário ir ajustando e testando para ver o resultado, porque não existe uma tabela com as aplicações para esse tipo de combustível“.
Além da reprogramação e da adaptação, recomenda-se inspeção e substituição preventiva de mangueiras, retentores e itens de vedação, que em carros mais antigos podem ressecar e se desgastar mais rápido com maior presença de etanol.
O que os motoristas podem fazer agora
Para reduzir riscos, mantenha o veículo em dia com a manutenção, troque velas e filtros conforme indicado, e, se possível, prefira postos de confiança para evitar combustíveis contaminados com água.
Se o carro for antigo e tiver carburador ou tanque metálico, consulte um mecânico de confiança sobre adaptações ou sobre a necessidade de trocar componentes sensíveis antes que a nova mistura chegue ao posto.
Por fim, acompanhe as próximas fases de testes e as recomendações oficiais, e lembre que, como alertam os técnicos, “Se continuar aumentando a porcentagem, logo esses carros a gasolina não conseguirão andar sem fazer uma série de adaptações“, aponta Tenório.