Dentro de uma pequena fábrica familiar de autopeças nos arredores de Buenos Aires, as linhas de produção desaceleraram, a operação funciona abaixo da capacidade e a competição com importados ficou mais dura.
A Suspenmec, que produz aproximadamente 600 tipos de componentes para sistemas de suspensão, viu as vendas caírem cerca de 30% neste ano, enquanto peças importadas mais baratas, especialmente da China, ganharam espaço.
O choque da abertura comercial e a valorização do peso transformaram a dinâmica do setor, afetando sobretudo pequenas e médias empresas, seus empregos e a produção doméstica, conforme informações divulgadas pelas fontes recebidas, incluindo AFAC, INDEC, Fundar e declarações de executivos e consultorias.
Como a abertura comercial mudou o mercado
As reformas econômicas adotadas pelo presidente Javier Milei, como a redução das barreiras às importações e a política de um peso mais valorizado, ajudaram a estabilizar a economia, porém expuseram fabricantes que por anos estiveram protegidos da concorrência externa.
As importações de autopeças cresceram 11,6% em 2025 em relação ao ano anterior, alcançando cerca de US$ 10,32 bilhões, segundo dados da entidade do setor AFAC, e as importações provenientes da China cresceram 80,9% no mesmo período, atingindo US$ 1,46 bilhão, embora o Brasil continue sendo o principal fornecedor.
Fabricantes estrangeiros do setor também recuaram, por exemplo, a sueca SKF e a norte-americana Dana fecharam algumas de suas unidades na Argentina, pressionando ainda mais o ecossistema local.
Queda de produção e impacto sobre empregos
A produção de autopeças recuou 22,5% nos dois primeiros meses deste ano em comparação com o mesmo período de 2025, segundo o instituto oficial de estatísticas INDEC, e a produção de veículos, que chegou a 490 mil unidades em 2025, caiu 19% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior.
O setor de autopeças perdeu cerca de 5 mil postos de trabalho em 2025, o equivalente a 10% de sua força de trabalho, segundo dados da AFAC, enquanto a taxa de desemprego subiu para 7,5% no quarto trimestre de 2025, frente a 6,4% um ano antes.
Para executivos do setor, a mudança foi abrupta, como afirmou Nicolas Ballestrero, CEO do Grupo Corven, “É um ponto de inflexão, Entramos muito rapidamente em um novo ecossistema, no qual a abertura da economia e do comércio internacional passou a pressionar as empresas industriais argentinas”.
Pressões sobre preços, demanda interna e o desafio político
Com a valorização do peso, a concorrência com importados ficou mais intensa, e setores que atendem o mercado interno sofreram com a queda do poder de compra após medidas de austeridade para conter a inflação.
Sobre a valorização da moeda, o economista Ricardo Delgado afirmou, “Com um peso que se valorizou 10% em relação a dezembro passado, o que implica uma inflação em dólar de 10%, haverá muitas dificuldades para empresas que produzem e competem com importados conseguirem ter sucesso”.
O cenário econômico mais amplo mostra um crescimento dos exportadores de commodities, enquanto a indústria de transformação recuou 8,7% e o comércio varejista teve queda de 7%, segundo dados do INDEC, e entre novembro de 2023 e janeiro deste ano 24.180 empresas fecharam as portas, de acordo com a consultoria Fundar.
Rumo a uma saída dependente de especialização e exportação
Especialistas destacam que a adaptação passa por especialização e aumento de exportações, visando mercados regionais. Andres Civetta, economista da consultoria Abeceb, estima que, no futuro, o país poderia exportar cerca de 400 mil veículos comerciais leves por ano, acima dos aproximadamente 280 mil enviados no ano passado, principalmente para o Brasil e outros mercados da América Latina.
A análise indica que, sem ajustes de competitividade e foco em mercados externos, muitas empresas locais terão dificuldade para competir com importados, e o desafio político de manter emprego e arrecadação pode crescer às vésperas de novas disputas eleitorais.
Em resumo, a indústria de autopeças argentina vive um momento de ruptura, com empresas familiares reduzindo produção, fábricas fechando, aumento de importações e retirada de emprego formal, ao mesmo tempo em que o país busca equilibrar estabilização macroeconômica e sustentabilidade do parque industrial.