Como a presença do etanol na gasolina nasceu em 1931, se ampliou com a crise do petróleo dos anos 1970, e hoje justifica o aumento temporário para 32%
O uso do etanol na gasolina tem raízes históricas no Brasil, e passou por fases de estímulo, recuo e modernização tecnológica ao longo de quase um século.
Decisões técnicas e políticas, ligadas a segurança energética e variações do preço internacional do petróleo, moldaram regras que vão de decretos dos anos 1930 ao Programa Nacional do Álcool, o Proálcool.
As informações reunidas aqui vêm de documentos históricos e do anúncio mais recente do Conselho Nacional de Política Energética, conforme informações divulgadas pelo CNPE e por documentos históricos presentes no material fornecido.
As primeiras regras e a década de 1930
O primeiro marco regulatório para a mistura de álcool na gasolina data de fevereiro de 1931, com a assinatura do Decreto nº 19.717, que determinou a adição de álcool à gasolina importada.
A implementação foi escalonada para adaptação do mercado, começando em julho de 1931 com 2% de mistura, em agosto subiu para 3%, em setembro para 4% e em outubro consolidou o patamar de 5%.
Na década seguinte, o governo de Getúlio Vargas criou o Instituto do Açúcar e do Álcool em 1933, para direcionar excedentes da cana para destilarias e promover o chamado “álcool-motor”.
Em 1938, um decreto ampliou a exigência e passou a determinar que até a gasolina nacional deveria receber adição de etanol, com volumes definidos pelo IAA e pelo Conselho Nacional do Petróleo.
Choque do petróleo, preços e a criação do Proálcool
O choque do petróleo no início dos anos 1970 acelerou a aposta no etanol na gasolina como alternativa, diante da escalada dos preços internacionais do combustível fóssil.
Naquele período, a pressão era evidente, “O preço foi US$ 1,90 em 1972 para US$ 11,20 por barril em 1974”, o que afetou fortemente a balança comercial brasileira.
Para reduzir a dependência do petróleo importado, em 14 de novembro de 1975 foi instituído o Programa Nacional do Álcool, o Proálcool, por meio do Decreto nº 76.539.
O Proálcool foi estruturado em três pilares principais, a saber, a mistura obrigatória de etanol anidro à gasolina, a expansão da distribuição de etanol em postos, e o desenvolvimento de veículos movidos exclusivamente a álcool hidratado.
Na prática, o programa mobilizou governo, indústria automobilística, universidades e produtores de cana, elevando rapidamente a produção do biocombustível e transformando a cana‑de‑açúcar em matéria‑prima energética.
Desafios técnicos, conversões e o surgimento dos carros a álcool e flex
No início dos anos 1970, conversões improvisadas em oficinas adaptavam motores para rodar com álcool, mas sem padronização era comum haver falhas e danos mecânicos.
Problemas como degradação de dutos, vazamentos, dificuldade de partida em temperaturas baixas e entupimento de carburadores eram rotineiros, porque o etanol reagia com ligas metálicas usadas nas peças.
Foi só em 1979 que engenheiros lançaram um carro capaz de rodar com 100% de etanol, o Fiat 147, cujo projeto começou em 1976, e que passou por testes de endurance, incluindo um trajeto de 6,8 mil quilômetros em 12 dias realizados em 1978.
Com o avanço das pesquisas e da indústria, surgiram soluções como tanquinho para partida a gasolina em veículos a álcool, e posteriormente aquecedores na linha de combustível em carros flex, para facilitar a ignição do etanol.
Retomadas, frota flex e a decisão recente de aumentar a mistura
O Proálcool enfrentou dificuldades na década de 1990, quando a queda do preço do petróleo internacional reduziu sua competitividade, e o programa quase desapareceu.
A retomada veio a partir de 2003, com a parceria entre produtores de etanol e a indústria automotiva, que popularizou os veículos bicombustíveis e, depois, os flex.
Segundo dados da Unica, hoje existem mais de 32 milhões de carros flex no Brasil, o que equivale a 85% da frota.
Na prática, essa capacidade da frota torna política a gestão da mistura de combustível, porque aumentar o teor de etanol na gasolina impacta oferta, demanda e preços no varejo.
Recentemente, “Nesta terça-feira (14), o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) anunciou o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina, de 30% para 32%”, e “A medida tem 180 dias de duração”, segundo o comunicado oficial presente no material fornecido.
O governo justificou a medida como manobra para controlar preços, diante da retomada de conflitos entre Estados Unidos e Irã, que atrapalharam o fornecimento global de petróleo e elevaram cotações internacionais.
Medidas temporárias como essa refletem a continuidade da estratégia brasileira de usar o etanol na gasolina como instrumento de segurança energética e mitigação de choques externos, além de aproveitar a capacidade instalada da indústria sucroenergética.
O que muda para o consumidor e para o setor
No curto prazo, aumentar a mistura pode reduzir pressão sobre preços da gasolina comum, porque amplia o uso de combustível produzido internamente.
Para postos e distribuidores, a alteração exige ajustes operacionais e logística, e para fabricantes de veículos, a presença elevada de etanol anidro é absorvida pela frota flex moderna, desenvolvida para variações na composição do combustível.
No médio prazo, decisões sobre mistura dependem de fatores como preços internacionais do petróleo, safra de cana, capacidade das destilarias e decisões políticas, que já moldaram essa trajetória desde 1931.
Em suma, a mistura do etanol na gasolina é resultado de quase um século de políticas públicas, crises externas e inovação tecnológica, e a medida temporária para 32% é a última resposta desse histórico ao contexto global de instabilidade.