Programa Move Aplicativos amplia linha para seminovos elétricos e híbridos flex, permitindo compra de usados com juros menores, mas aprovação de crédito segue como maior barreira
O governo federal ampliou o programa Move Aplicativos para permitir que motoristas de app e taxistas comprem carros usados dentro da linha com juros mais baixos, segundo a medida anunciada esta semana.
A novidade vale para seminovos elétricos e híbridos flex fabricados a partir de 2024, com preço de até R$ 150 mil, desde que a montadora esteja habilitada no programa.
Apesar da ampliação e da injeção de R$ 30 bilhões para subsidiar taxas, poucos contratos foram fechados e a principal razão é a dificuldade na aprovação do crédito, conforme informação divulgada pelo g1.
Quem pode financiar e quais carros entram
As regras para seminovos seguem praticamente as mesmas já em vigor desde junho. O veículo precisa custar até R$ 150 mil, o modelo seminovo deve ser elétrico ou híbrido flex, e precisa ter sido fabricado a partir de 2024. Modelos híbridos apenas a gasolina não entram no programa, e a montadora deve estar habilitada no programa Mover.
Há poucos carros híbridos flex por menos de R$ 150 mil no mercado de seminovos, segundo a tabela Fipe. Já os modelos elétricos são mais numerosos, e a Fipe aponta preços médios como BYD Dolphin Mini, R$ 98.136, BYD Dolphin, R$ 118.540, GWM Ora 03, R$ 120.391, GAC Aion UT, R$ 128.790, Chevrolet Spark EUV, R$ 139.020, Geely EX2, R$ 113.882, e Renault Kwid E-Tech, R$ 81.412.
Por que o crédito não sai, segundo especialistas e representantes
Embora os juros oferecidos pela linha sejam inferiores à metade dos praticados no mercado, especialistas e lideranças do setor apontam que o principal gargalo é o endividamento das famílias e a política de risco das instituições financeiras.
O pesquisador Armando Castelar, do FGV Ibre, ressalta que “As famílias estão muito endividadas. Tanto a dívida, quanto o serviço da dívida, que é o que as famílias gastam por mês para pagar juros e amortização, estão no recorde histórico”, o que reduz o número de interessados na renovação do veículo.
Leandro Cruz, presidente do Sindicato dos Trabalhadores com Aplicativos de Transportes Terrestres Intermunicipais do Estado de São Paulo, confirmou a dificuldade de acesso e disse que “O maior problema é que o trabalhador que trabalha muito, que faz de R$ 10 mil a R$ 12 mil, já está negativado. Esse trabalhador é o que mais tem condições de financiar, mas vem sendo negado quando pede o financiamento”.
Um representante do setor observa que, mesmo reduzidos os juros, o preço do carro segue alto, e que “Um motorista de Uber pagar R$ 120 mil em tantos meses, fica uma prestação salgada mesmo com esses juros”.
Impacto prático e dados do programa
Apesar da disponibilidade de recursos, a execução tem sido lenta. Até 14 de julho, o BNDES informou que R$ 1 bilhão foi empenhado no programa, o que representa apenas 3% do total reservado para garantir o financiamento dos veículos.
As instituições que realizaram operações até agora foram Banco do Brasil, Banrisul, Caixa Econômica Federal, Sicoob, Sicredi, Ailos, GM Financial, Volkswagen Financial Services, Banco Stellantis e Mobilize Financial Services, e outras ainda estão implementando o programa em seus sistemas.
A Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores, a Fenauto, disse que a expansão é bem-vinda, mas que “Se os critérios de análise de risco permanecerem os mesmos, uma parcela significativa desses profissionais continuará encontrando barreiras para acessar o financiamento”, segundo Everton Fernandes, presidente da Fenauto.
Posição do BNDES e panorama do endividamento
O BNDES afirmou que não há problemas na instituição para o repasse dos valores e que “O Programa BNDES Move Motoristas segue em pleno funcionamento, com operações e repasse de recursos sendo realizados por meio da rede de instituições financeiras credenciadas, conforme o modelo previsto”.
O banco também explicou que a aprovação é gradual, porque envolve habilitação, análise de crédito e contratação junto aos agentes financeiros, e que os critérios de aprovação seguem a política de crédito de cada instituição credenciada.
O alto nível de endividamento no país agrava o cenário, segundo dados do Serasa. Em junho deste ano, foram contabilizados 83,7 milhões de endividados no país, 17,2% a mais do que em 2023, quando eram 71,4 milhões, este é o maior número da série histórica, que indica alta por 18 meses consecutivos.
Em resumo, a linha do Move Aplicativos abre o caminho para que motoristas de app comprem carros usados elétricos e híbridos flex com juros menores, porém o avanço concreto depende da flexibilização das políticas de crédito das instituições financeiras e do alívio do endividamento das famílias, pontos que especialistas e representantes consideram essenciais para ampliar o alcance do programa.